Ao tomar a pena para escrever estas linhas, meu espírito encontra-se envolvido por um profundo sentimento de gratidão, reverência e esperança. A Providência Divina, que conduz todas as coisas com sabedoria e amor, permitiu que eu caminhasse entre vós como sucessor dos Apóstolos, colaborando, como Bispo Auxiliar, na missão de santificar, ensinar e governar o santo Povo de Deus confiado a esta venerável Sé Apostólica. Agora, chegando o momento de concluir este serviço, desejo dirigir-vos uma última palavra, não como expressão de tristeza, mas como testemunho de comunhão, de fé e de confiança naquele que é o único e eterno Pastor da Igreja.
Jamais considerei o ministério episcopal uma honra destinada à exaltação humana. Sempre o compreendi como um chamado à entrega total, um convite para subir diariamente o Calvário ao lado de Cristo, carregando com Ele a cruz do serviço, do sacrifício e da caridade pastoral. O báculo que recebi jamais significou poder; significou responsabilidade. A mitra jamais representou privilégio; recordou-me continuamente o dever de buscar a santidade. O anel episcopal recordou-me, todos os dias, que minha vida estava irrevogavelmente unida à Esposa de Cristo, a Santa Igreja.
Por essa razão escolhi, no início de meu ministério, as palavras do Apóstolo São Paulo como lema de minha vida episcopal: Verbum Crucis, Virtus Dei. Não foram apenas palavras gravadas em um brasão, mas a síntese de tudo aquilo que desejei viver. A Palavra da Cruz sustentou meus passos quando as forças humanas pareciam insuficientes; iluminou minhas decisões quando os caminhos se mostravam obscuros; fortaleceu minha esperança quando o sofrimento parecia superar as possibilidades do coração humano. Se algum bem foi realizado por meio de meu pobre ministério, pertence unicamente a Cristo Crucificado, cuja Cruz permanece sendo, ontem, hoje e para sempre, a força de Deus para todos aqueles que creem.
Ao longo desta caminhada, aprendi que a Igreja jamais é edificada pelo talento dos homens, mas pela graça do Espírito Santo. Os pastores passam; as gerações sucedem-se; as estruturas transformam-se; porém Cristo permanece o mesmo, eterno e fiel. Ele é o fundamento desta Igreja, o verdadeiro Pastor do rebanho, o Senhor da história e da eternidade. Foi sempre esta certeza que sustentou minha paz e agora também sustenta minha despedida.
Agradeço, antes de tudo, ao Deus Uno e Trino, fonte de toda vocação e de toda missão. A Ele pertence toda honra, toda glória e toda ação de graças. Sem sua graça nada teria sido possível; sem sua misericórdia eu jamais teria permanecido firme nas responsabilidades que me foram confiadas.
Com igual gratidão volto meu pensamento para a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, que tantas vezes invoquei em silêncio antes de tomar decisões importantes, antes de subir ao altar do Senhor ou antes de enfrentar os desafios do ministério. Sob seu olhar materno encontrei consolo, prudência e esperança.
Dirijo também minha sincera gratidão ao nosso Arcebispo Metropolitano, com quem tive a graça de colaborar fraternalmente no serviço desta Igreja Particular. A comunhão episcopal é um dos mais belos testemunhos da unidade querida por Cristo, e agradeço por ter podido exercer meu ministério em espírito de colaboração, respeito e fraternidade.
Aos meus irmãos Bispos manifesto profunda estima. Aos presbíteros, cooperadores indispensáveis do ministério episcopal, expresso minha admiração por sua dedicação diária ao povo de Deus. Aos diáconos, agradeço o testemunho do serviço humilde e generoso. Aos religiosos e religiosas, agradeço a beleza silenciosa de uma vida inteiramente consagrada ao Senhor. Aos seminaristas, confio uma palavra de esperança: permanecei fiéis ao chamado recebido e jamais permitais que a cruz de Cristo deixe de ocupar o centro de vossa vocação.
Aos fiéis leigos, homens e mulheres que vivem o Evangelho no cotidiano das famílias, do trabalho, da educação e da sociedade, deixo meu reconhecimento. Muito do que esta Igreja realiza nasce da fidelidade escondida de pessoas simples, cuja santidade é conhecida plenamente apenas por Deus.
Levo comigo a memória de incontáveis celebrações da Santíssima Eucaristia, ordenações, visitas pastorais, encontros com crianças, jovens, famílias, idosos e enfermos. Cada comunidade visitada deixou uma marca em minha alma; cada rosto encontrado tornou-se parte de minha oração. Nada disso será esquecido enquanto Deus me conceder vida.
Reconheço, entretanto, que meu ministério também foi marcado por limitações. Como todo homem, experimentei fragilidades, cometi equívocos e deixei de realizar muitas coisas que desejava. Se alguma palavra minha feriu, se alguma decisão causou sofrimento, se alguma omissão provocou decepção, peço humildemente o perdão de todos. Nunca desejei outra coisa senão servir a Cristo e à sua Igreja, ainda que minhas limitações humanas nem sempre tenham correspondido à grandeza dessa missão.
Da mesma forma, asseguro que guardo em meu coração apenas gratidão. Não levo comigo ressentimentos nem recordações amargas. Tudo entrego à misericórdia de Deus, pois somente ela é capaz de transformar as fragilidades humanas em ocasião de santificação.
Ao deixar este ministério, não vos deixo uma herança material, nem um projeto humano, nem um nome a ser lembrado. Desejo deixar-vos apenas uma exortação: permanecei fiéis. Permanecei fiéis a Cristo, fiéis ao Evangelho, fiéis à Sagrada Escritura, fiéis à Tradição Apostólica, fiéis ao Magistério da Igreja, fiéis à Sagrada Liturgia celebrada com dignidade, fiéis à Eucaristia, fiéis à caridade, fiéis à unidade e fiéis à Cruz.
Jamais permitais que o espírito do mundo substitua a sabedoria do Evangelho. Nunca deixeis que as divisões humanas enfraqueçam a comunhão da Igreja. Conservai sempre a alegria de pertencer a Cristo e de servir ao seu Reino.
Continuarei unido a esta amada Sé Apostólica pela oração cotidiana. Sempre que oferecer o Santo Sacrifício da Missa, apresentarei ao Senhor esta Igreja Particular. Sempre que contemplar o Crucificado, recordarei cada sacerdote, cada religioso, cada seminarista, cada família e cada fiel que fizeram parte desta etapa de minha vida.
Se a vontade de Deus permitir que nossos caminhos não mais se encontrem nesta terra, permaneço certo de que nos reencontraremos diante do trono do Cordeiro, onde não haverá despedidas, mas somente a alegria eterna daqueles que perseveraram na fé.
Até esse dia, permaneçamos firmes na esperança, inabaláveis na caridade e constantes na oração.
Verbum Crucis, Virtus Dei.
Que a Palavra da Cruz continue sendo a força desta Sé Apostólica, o fundamento de sua missão e a esperança de todos aqueles que nela encontram o caminho da salvação.
Dado na Região Episcopal de Nova Iguaçu em Santa Cruz, sob o Nosso selo e assinatura, aos 29 dias do mês de julho do Ano do Senhor de MMXXVI.

